INCLUSÃO
Autora: Heloiza Barbosa
Mestre em Educação Especial - Lesley College, EUA
Refletir sobre as questões de uma escola de qualidade para todos,
incluindo alunos e professores, através da perspectiva socio-cultural significa
que nós temos de considerar, dentre outros fatores, a visão ideológica de
realidade construída sócio e culturalmente por aqueles que são responsáveis
pela educação. Julgamentos de "deficiência",
"retardamento", "privação cultural" e "desajustamento
social ou familiar" são todos construções culturais elaborados por uma
sociedade de educadores que priviliegia uma só fôrma para todos os tipos de
bôlos. E geralmente a forma da fôrma de bôlo é determinada pelo grupo social
com mais poder na dinâmica da sociedade. Não é raro se ver dentro do ambiente
escolar a visão estereótipada de que crianças vivendo em situação de pobreza e
sem acesso à livros e outros bens culturais são mais propensas a fracassar na
escola ou a requerer serviços de educação especial. Isto porque essas crianças
não cabem na fôrma construída pelo ideal de escola da classe media, ou ainda,
porque esssas crianças não aprendem do mesmo jeito ou na mesma velocidade
esperada por educadores e administradores. Estereótipos pervadem a prática
pedagógica e são resultados da falta de informação e conhecimento que
educadores e administradores tem a respeito da realidade social e cultural,
como também do processo de desenvolvimento cognitivo e afetivo das crianças
atendidas pelas escolas. A prática de classificar e categorizar crianças
baseado no que estas crianças não sabem ou não podem fazersomente
reinforça fracasso e perpetua a visão de que o problema está no indivíduo e não
em fatores de metodologias educationais, curriculos, e organização escolar.
Aceitar e valorizar a diversidade de classes sociais, de culturas, de estilos
individuais de aprender, de habilidades, de línguas, de religiões e etc, é o
primeiro passo para a criação de uma escola de qualidade para todos.
Educar indivíduos em segregadas salas de educacão especial significar
negar-lhes o acesso à formas ricas e estimulante de socialização e aprendizagem
que somente acontecem na sala de aula regular devido a diversidade presente
neste ambiente. A pedagogia de inclusão baseia-se em dois importantes
argumentos. Primeiramente, inclusão mostrou-se ser benefícial para a educação
de todos os alunos independente de suas habilidades ou dificuldades. Pesquisas
realizadas nos Estados Unidos, revelaram que crianças em demanda por serviços
especiais de atendimento apresentaram um progresso acadêmico e social maior que
outras crianças com as mesmas necessidades de serviços especiais mas educadas
em salas de aula segregadas (Snell, 1996; Downing, 1996; Hunt, et.al., 1994).
Isso pode justificar-se pela diversidade de pessoas e metodologias educacionais
existentes em sala de aula regulares, pela interação social com crianças sem
diagnóstico de necessidade especial, pela possibilidade de construir ativamente
conhecimentos, e pela aceitação social e o consequente aumento da auto-estima
das crianças identificadas com "necessidades especiais".
O segundo argumento baseia-se em conceitos éticos de direito do cidadão.
Escolas são contruídas para promover educação para todos, portanto todos os
indivíduos tem o direito de participação como membro ativo da sociedade na qual
estas escolas estão inseridas. Todas as crianças tem direito à uma educação de
qualidade onde suas necessidades individuais possam ser atendidas e aonde elas
possam desenvolver-se em um ambiente enriquecedor e estimulante do seu
desenvolvimento cognitivo, emocional e social.
O Que as Pesquisas Tem a Dizer sobre a Inclusão de Alunos com
"Necessidades Especiais" nas Salas de Aula Regulares
1- Os Benefícios da Inclusão para Alunos com "Necessidades
Especiais"
1.1- Na Perspectiva do Professor: Diversos pesquisadores
acadêmicos nos Estados Unidos documentaram os aspectos positivos da prática de
inclusão dos individuos com "necessidades especiais" através de dados
coletados com os professores destes alunos. Giangreco e seus colegas (1993)
entervistaram 19 professores de salas de aula regulares que tinham no mínimo um
aluno com "necessidades especiais"em suas classes. Estes professores
afirmaram que os alunos diganosticados com "necessidades especiais"
aumentaram suas capacidades de atenção, de comunicação e de participação em
atividades educativas em um espaço de tempo considerávelmente menor do que se
estes fossem educados em salas de aula segregadas-especiais. Janzen e seus
colegas (1995) entrevistaram cinco professores de educação especial e cinco
professores de educação regular sobre os beneficios de inclusão para os alunos
com e sem "necessidades especiais", e o resultados destas entrevistas
apontaram para o fato de que os alunos, antes educados em segregadas-especiais
salas de aulas, desenvolveram mais amizades na sala de aula regular e
construíram um círculo de amigos que os ajudavam e ajudavam aos professores
também na inclusão de todos os alunos nas atividades da sala de aula. Downing,
Eichinger e Williams (1996) entrevistaram nove professores de educação regular
e nove professores de educação especial sobre a percepção deles dos benefícios
de inclusão para todos os alunos. Os professores neste estudo afirmaram que o
ambiente rico em situações de aprendizagem característico das salas de aula
regulares possibilitaram os alunos com profundo retardamento mental a construirem
comportamentos socialmente apropriados, a fazerem amizades com as cianças
normalmente educadas em classes regulares e a desenvolverem abilidades de
participação ativa em atividades escolares.
1.2- Na Perspectiva do Aluno: York et al. (1992) entrevistaram
alunos de quarta e quinta séries que tinham colegas com "necessidades
especiais" nas suas salas de aula. Esses alunos afirmaram que em um ano os
alunos com "necessidades especiais" tinham se tornado mais sociais,
mais comunicativos e tinham reduzido significantemente os comportamentos
considerados inapropriados para a cooperativa participação na sala de aula
regular, como por exemplo balançar o corpo ou as mão ou fazer sons e ruídos.
1.3- Na Perspectiva dos Pais: Davern (1994) entrevistou
vinte e um pais de alunos com profunda e leve deficiência que estavam sendo
educados em classes regulares. Estes pais reportaram que os beneficios da
inclusão dos seus filhos eram visíveis na communicação e sociabilidade ques
eles passaram a demonstrar. Os pais neste estudo também disseram que se
sentiram muito mais encorajados pela escola à participar da educação de seus
filhos quando estes foram incluídos em salas de aulas regulares. Em um outro
estudo desenvolvido por Ryndack e seus colegas (1995) entrevistas com treze
pais de alunos com profunda física-motora e mental deficiências educados em
classes regulares, indicaram que estes alunos desenvolveram abilidades sociais,
acadêmicas e comunicativas, como também um senso de auto-aceitação e
auto-valorização.
2- Os Benefícios da Inclusão para os Alunos sem "Necessidades
Especiais"
2.1- Na Perspectiva do Professor: York et al. (1992)
entrevistas com professores sobre os benefícios de inclusão para os alunos sem
"necessidades especiais" concluiram que essess alunos tornaram-se
mais sensíveis as questões de discriminações que acontecem no coditiano e muito
mais críticos sobre as formas de estereótipos produzidas socialmente. Os 19
professores entrevistados por Giangreco e seus colegas (1993) afirmaram que os
estudantes sem "necessidades especiais" desenvolveram abilidades de
aceitação e flexibilidade que são considerávelmente importantes para a vida em
sociedade democrátca. Downing et al. (1996) entrevistando professores sobre
esta questão confirmou os achados dos estudos anteriores e também acrescentou
que os professores perceberam que os alunos sem "necessidades
especiais"educados em conjunto com alunos com "necessidades
especiais" desenvolveram uma abilidade maior para liderança e cooperação.
2.2- Na Perspectiva do Aluno: Helmstetter, Peck e Giangreco
(1994) fizeram uma pesquisa involvendo 166 alunos do segundo grau nas escolas
Americanas dos Estados Unidos para saberam o quê eles tinham a dizer sobre ter
colegas com profunda física-motora ou mental deficiência em suas salas de aula.
Os resultados destas pesquisas apontaram para a mudança de atitude destes
jovens em relacão as pessoas "portadoras de deficência". Estes alunos
passaram a valorizar as pessoas pela contribuição que elas tem a dar, passaram
a ser mais tolerantes com existência de "diferenças", e passaram a
valorizar a diversidade da condição de ser humano. Staub et al. (1994) estudou
por três anos o desenvolvimento de uma amizade entre quatro alunos com Syndrome
de Down e Autismo e quatro alunos sem deficiências. Este estudo demonstrou que
só foi possível a criação destes laços afetivos de amizade entre indivíduos com
e sem deficiências porque estes foram incluídos em um processo ativo e
cooperativo de aprendizagem.
2.3- Na Perspectiva dos Pais: Peck, Carlson e Helmstter
(1992) pesquisou a visão dos pais de 125 crianças na pré-escola consideradas
sem deficiências que tinham colegas na sala de aula com profunda física-motora
ou mental deficiências, os resultados destas pesquisas indicaram que os pais
destas crianças aprovaram entusiasmadamente a proposta de inclusão, pois eles
observaram as seguintes mudanças nos seus filhos: 1) Mais aceitação em relação
a diferenças individuais. 2) As crianças se tornaram mais conscientes a
respeito das necessidades dos outros. 3) As crianças se tornaram mais
confortáveis na presença de pessoas que usam cadeiras de rodas, aparelhos de
surdez, braile, ou outro qualquer necessário instrumento que facilite a
participação destas crianças nas atividades de sala de aula. 4) Estas crianças
se mostraram mais voluntárias a ajudar os outros. 5) Estas crianças
desenvolveram uma postura crítica contra preconceitos à pessoas com
deficiência.
Todos estes estudos nos mostram que inclusão é possível e que inclusão aumenta
as possibilidades dos individuos identificados com necessidades especiais de
estabelecer significativos laços de amizade, de desenvolverem-se físico e
cognitivamente e de serem membros ativos na construção de conhecimentos.
Portanto, a pergunta inicial deste texto - "Por que Inclusão?" -
pode ser respondida simplesmente desta forma: "Porque inclusão
funciona." O principal ponto da pedagogia de inclusão é que todas
os individuos podem aprender uma vez que nós professores identificamos o
quê estes individuos sabem, planejamos em torno deste prévio conhecimento, e
conhecemos o estilo de aprender e as necessidades individuais dos nossos
alunos. Todos os alunos podem se beneficiar das metodologias de
inclusão e todos podem descobrir juntos que existem diferentes ingredientes
para diferentes bôlos. Escolas devem se torna um lugar de aprendizagem para
todos. Nós não podemos nos dar ao luxo de criar currículos e programas
educacionais que somente favorecem uma parcela privilegiada da sociedade, seja
em termos econômicos ou em termos de abilidades físicas e cognitivas. Nós
precisamos ter currículos e programas que proporcionem uma educação de
qualidade para todos. Aos educadores devem ser dados os instrumentos
necessários para que eles possam ver a todos os alunos, incluindo os alunos com
deficiência, com um potencial ilimitado de aprender.
* Achei esse texto da Heloiza Barbosa muito pertinente, pois aborda a
inclusão do ponto de vista dos alunos com nee e dos ditos "normais" e
o que ambos tem a ganhar. Apreciem!
Abraços,
LuHelena